Casinha do Rodrigo #4



A carreira de Rui Costa está num ponto em que é preciso claramente ponderar se este é o caminho a seguir. Será que foi uma boa escolha apostar em ficar na UAE Team Emirates? Será uma boa aposta continuar com objetivos claros em Grandes Voltas?


Ponto prévio: Sou um enorme fã daquele que é sem qualquer dúvida um dos 2 melhores ciclistas portugueses da história (não quero entrar em discussão sobre este assunto). Todos os meus familiares e amigos poderão confirmar que não nutro qualquer tipo de animosidade perante o Rui, estou constantemente na expetativa para ver que poderá fazer, mas há coisas que sinto necessidade de comentar.

 

O Rui é um caso especial na minha vida enquanto amante de ciclismo. É difícil explicar o que é que um ciclista que nos traz expetativas do tamanho do mundo poderá significar para nós. É certo que o povo português tem a tendência a pôr demasiado peso em cima dos ombros daqueles que nos poderão trazer sucessos, a ser demasiado exigente e a pedir mundos e fundos aos seus representantes sem lhes dar nada em troca, mas penso que o Rui nunca se poderá queixar de falta de apoio nacional e também creio que nunca o fará. É alguém que conquistou a simpatia de (quase) todos em Portugal. A minha história com “ele” começou em 2008. Ganhei uma esperança gigante quando vi aquele 2º lugar no Tour de l’Avenir e aquele Mundial sub-23 estrondoso. A esperança só cresceu quando o vi vencer em Dunkerque no ano de 2009 ou na Suiça no ano de 2010. Quando em 2011 vence em Super Besse, suportando a perseguição de Vinokourov e nos traz aquela vitória incrível do Tour, tinha a certeza de que tínhamos alguém capaz de nos dar as maiores alegrias que eu tive a oportunidade de vivenciar enquanto fã de ciclismo. Foi isso que ele me deu quando venceu o GP de Montreal no mesmo ano ou quando venceu a primeira, a segunda e a terceira Volta à Suiça. Foi alegria que ele me deu quando nos concedeu os dois primeiros pódios em monumentos do ciclismo.

No entanto, foi em 2013 que sinto que ele me trouxe o expoente de alegria. Primeiro, estava fora do país quando ele venceu aquelas 2 etapas no Tour, mas foi naquele ano que o Rui tinha claramente pernas para chegar ao top-10 final, tendo sido prejudicado pelo facto de ter de ficar a apoiar Valverde numa etapa em que o espanhol fica num corte. No entanto, acho que ficou bem patente que o nosso campeão tinha fibra e aquelas 2 vitórias foram impressionantes e uma amostra do que ele nos podia dar no futuro. Quando chegou aquele mítico dia 29 de Setembro de 2013 nada me fazia prever, mas recordo-me que na madrugada anterior pus 20 cêntimos na vitória de Rui Costa. Havia sempre aquela esperança cega de o poder vencer. Algumas horas depois chorava de alegria em frente à stream ao mesmo tempo que o nosso campeão chorava ao ouvir o nosso hino. Não houve momento no desporto nacional que me tivesse trazido tamanho orgulho na minha vida como aquela vitória, aquele momento em que o Rui ergue os braços em Florença. A isso estou-lhe eternamente agradecido.

 

No entanto, não posso estar satisfeito neste momento. Quer queiramos, quer não, o Rui conquistou um patamar dentro do ciclismo que exige outro tipo de resultados. É o ciclista mais bem pago numa equipa que tem donos bilionários e tem que garantir vitórias. A sua vitória em Abu Dhabi foi uma vitória “à Rui”, mas desde então os resultados roçaram o medíocre até ao Giro, onde foi esforçado, mas falhou claramente o objetivo. O nosso campeão do mundo não pode dar-se por satisfeito com 3 segundos lugares, ninguém se vai recordar de quem fez 2º lugar na 17ª etapa do Giro 2017 daqui por 2 anos. Ele tem lugar marcado na história pelas vitórias que conquistou, não é à base de lugares honrosos. E nós claro que temos que o apoiar e estar a seu lado, mas se há coisa que a vida me ensinou é que as coisas não vão melhorar à base de palmadinhas nas costas. Os fãs do Rui estarão sempre com ele, mas o Rui não pode estar satisfeito, nem pode assumir que isto será o suficiente para encarar uma temporada. Chegar-se ao ponto de assumir que o objetivo no Giro foi cumprido (repare-se, o Rui entrou no Giro para ganhar etapas) por ter feito três segundos lugares é atingir o cúmulo do ridículo… No entanto, isto leva-me a pensar um pouco sobre o que tem sido este fenómeno Rui Costa nos últimos meses.

Há 2 pontos que sempre foram fracturantes no poveiro: A sua postura dentro da corrida e a sua gestão de carreira.

A postura do português foi alvo de críticas por diversas vezes, tendo sido acusado por várias vezes de ser um “chupa-rodas”, raramente assumindo a corrida. O Rui nunca teve mais pernas que Valverde, Rodriguez ou Sagan, mas foi sempre mais inteligente que estes corredores. Mais conhecedor dos seus limites e um ciclista que geriu melhor o esforço. Ano após ano ele provava que se havia ciclista no mundo que ninguém gostava de ter na roda era ele. No entanto, nos últimos tempos tem-se provado inofensivo. O Rui não consegue fazer a diferença desta forma, porque está a medir cada vez pior o timing de ataque e quer assumir cada vez menos a corrida, não sabemos se por receio, por falta de pernas ou por um misto dos dois. A etapa que Rolland vence no Giro é o maior expoente disto. Rui Costa era claramente o ciclista mais capaz daquele grupo e isso comprovou-se com a facilidade com que sprintou para o 2º lugar. A sua equipa fez um trabalho extraordinário para o colocar em condições de discutir a vitória, mas o Rui tem que ser capaz de assumir e responder aos ataques a partir do momento que a equipa já não está lá. É assim que um líder se comporta! No entanto, o ex-campeão do mundo não o fez, deixou Rolland ir e esperou que puxassem no grupo por ele, resguardando-se para o sprint, tendo acabado por sair de mãos a abanar. Quando não há pernas, é mais fácil de desculpar, porque sentimos que o português deu tudo o que tinha, mas em momentos destes, torna-se mais difícil de engolir, porque foi claramente fruto de uma má leitura de corrida, algo que o Rui nunca fazia anteriormente. Isto não é a postura que um líder deve ter, especialmente quando a equipa deu tudo por ele, esforçando-se ao máximo para que o poveiro tivesse a oportunidade de discutir a etapa. Quando chegam os momentos decisivos, o Rui não pode falhar e ele não falhava antigamente, mas agora além desses momentos serem mais escassos para o português (um problema de andar mais longe das discussões pelas vitórias), ele ainda tem tido o “azar” de os esbanjar… No entanto, o que me tem feito mais confusão são as desculpas. É o estar doente seja nos treinos, seja nas provas em que falha objetivos (infelizmente têm sido quase todas…), seja depois das provas, Rui Costa tem tido praticamente em todas as provas uma desculpa para o insucesso desportivo, quando o que nos parece patente é que é mera falta de pernas para seguir com os melhores.

 

Quanto à sua gestão de carreira, esse tem sido um ponto mais que espremido, mas acho que este ano volta a merecer discussão. Respeito o sonho do Rui em atingir o top-10 final numa Grande Volta, mas acho inatingível. Ano após ano se fala dessa possibilidade e o ex-campeão do mundo tem sempre um dia em que claudica na prova, levando a tentar alcançar etapas ou até a desistir. Rui Costa tem muito melhores resultados em clássicas e provas de 1 semana do que nas provas de 3 semanas e deveria ser aí que o português se deveria focar. Como já havia referido, o português fez um belo início de temporada, mas não faz sentido algum que tenha estado nas Ardenas ainda longe da sua melhor forma para depois estar a lutar meramente por etapas no Giro, como qualquer ciclista de uma equipa continental faria, com todo o respeito por eles. O que faria sentido seria termos o Rui no topo da sua forma nas Ardenas, apostando fortemente em provas que já esteve pertíssimo de vencer para depois ver o que dava no Giro e no Tour, descansando um pouco para posteriormente apostar nas clássicas de final de temporada. Infelizmente não tem sido esse o foco de Rui Costa, viu-se claramente que o poveiro, apesar de assumir que não ia lutar pela Geral, foi vendo até onde conseguia levar essa tentativa durante o Giro e quando sentiu que já não dava, tentou conquistar etapas. Isto indica claramente que Rui Costa ainda não desistiu dum sonho que parece completamente impossível. Por outro lado, a sua manutenção na estrutura da Lampre/UAE Team Emirates não fez qualquer sentido. Por muito que tenha sido passada a mensagem de que Rui Costa havia mudado de equipa, a estrutura é a mesma, o manager é o mesmo e a equipa trabalha praticamente com os mesmos objetivos. Se Rui Costa havia tido 3 anos abaixo do que tinha feito na Movistar, ainda que com maior liberdade, então havia que procurar mudar e ser capaz de arriscar, que foi o que fez quando procurou ter mais protagonismo ao sair da Movistar. Na altura dei-lhe os parabéns pela escolha, agora acho que tem que voltar a arriscar e a sair da sua zona de conforto, procurando novos ares que lhe concedam um novo fôlego a uma carreira que parece em queda.

 

No fundo, acho que muito terá que mudar na forma como Rui Costa encara os seus resultados e o palmarés que está a construir. Não ponho em causa o seu profissionalismo, mas há que ser mais exigente e procurar mudar alguma coisa, porque todos sabemos que ele é capaz de bem melhor em termos de resultados. A minha opinião é de que há que dar uma volta de 180 graus no rumo que Rui Costa está a tomar, mas temo que não venha a acontecer...



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